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Baleia Azul

April 20, 2017

     Sensíveis e preocupados com toda mobilização social que vivemos esta semana com a intensa divulgação do jogo da Baleia Azul e do seriado "13 reasons why" exibido na Netflix, entendemos que é importante fazermos uma reflexão sobre como podemos de fato contribuir para que exista a valorização da vida e o respeito a morte evitando que nossas crianças e adolescentes se coloquem em situações de risco.

 

     O conhecimento e o entendimento dos fatores que levam ao pleno desenvolvimento humano bem como uma possível involução, devem ser constantemente considerados. É importante também que saibamos exercer bem o nosso papel de educadores, pais e filhos ampliando nossa zona de influência e inspirando nossas crianças e adolescentes a encontrarem maneiras eficazes de superar seus dramas pessoais.

 

     O texto da psicanalista Ana Suy nos permite entender um pouco mais algumas nuances desta polêmica situação e traz informações importantes para que possamos compreender este fenômeno e nos posicionarmos com mais tranquilidade evitando o pânico e a divulgação de informações que em nada contribuem para a solução do problema. Devemos manter o foco na solução e a tranquilidade necessária para não agravarmos ainda mais a situação gerando o caos generalizado.

 

BALEIA AZUL

 

     “Toda pessoa viva já pensou na morte. Pensar na morte faz parte da vida. O que diferencia alguém vivo de alguém morto é que o vivo ainda não morreu. Vida e morte são coisas claramente separadas, apenas nas palavras. Viver é morrer um pouco a cada dia. Morrer é parar de morrer.

 

     Uma vez, uma aluna minha, do curso de psicologia, disse que o “problema da vida” é que a gente já nasce morrendo. Assim, pensar na morte, faz parte da nossa constituição psíquica. É normal, não tem nada de errado com quem pensa na morte.

 

     Porém, a gente não pensa na morte de modo uniforme, ao longo de toda a vida. Se tem um tempo onde é mais comum pensar na morte, esse tempo, certamente, é a adolescência.

 

     Isso porque, na primeira infância, a gente vive como se fosse objeto do outro. “Sou da mamãe”, “sou do papai”, “sou da dinda”, dizem os bordados nos macacões e babadores que os bebês usam. Quer dizer, somos do outro.

 

     É no fim da infância e no começo da adolescência que vamos tomando posse do nosso corpo. É só aí que vamos entendendo, (inconscientemente, porque geralmente não percebemos que pensamos nisso) que nós pertencemos a nós mesmos.

 

     Se por um lado isso pode ser libertador, pois “se sou de mim mesmo, posso fazer o que eu quiser da minha vida” – por outro lado, isso pode ser vivido como pura angústia: “não sou de ninguém, então, não há ninguém por mim”.

 

     O encontro com essa descoberta em torno da liberdade/solidão, próprio da adolescência, pode levar vários jovens a imaginarem como seria a sua morte, como seria a reação das pessoas diante da morte dele. E pode levar os jovens ao desejo de morte – não como quem quer morrer, mas como quem quer levar o outro a sentir sua falta.

 

     No texto “Luto e melancolia” Freud diz que ninguém tem energia suficiente para tirar a própria vida, a não ser que entenda que, tirando a própria vida, está matando alguém em si. Nesse sentido, fica fácil entender como algumas pessoas podem tentar ou até mesmo conseguir tirar a própria vida. Nada parece mais eficaz para fazer falta no outro do que a eternização de uma falta.

 

     Assim, é comum na adolescência, certa melancolia. Os sentidos que os pais deram aos seus filhos para a vida, até então, demonstram falir.

 

     Até que os adolescentes encontrem seus próprios motivos para viver, por meio dos amigos, das causas e dos amores, um luto pode advir. É preciso que o adolescente possa expressar sua tristeza, porque vai descobrindo que seu modo de ver a vida, não é exatamente o mesmo que o dos pais.

 

     É por aí que ideias suicidas podem aparecer, e é bem aí que o jogo a baleia azul pode “cair como uma luva”. Um desastre.

 

     Se o adolescente consegue elaborar sua tristeza dizendo do que o incomoda, isso é uma coisa – e tem solução. Mas se ele não pode elaborar isso, se ele não encontra palavras para falar dessa tristeza, e então, se depara com o jogo da "baleia azul", então temos um problema de solução mais difícil, bem mais difícil.

 

     Um adolescente que levava a ferro e fogo as palavras dos pais, diante da falência das palavras deles, pode encontrar no jogo da "baleia azul", algo que substitua o que os pais disseram. É aí que mora o perigo.

 

     Por isso pais, é de extrema importância que a gente fale com nossos filhos adolescentes. Não sobre o jogo da baleia azul, ou sobre o GTA (que é aquele video-game super agressivo que deixa muita gente de cabelo em pé) ou sobre o 13 reasons why, mas sobre as coisas da vida. Sobre a vida do vizinho, sobre a matéria do jornal, sobre o filme que passou na tevê, sobre propagandas, trivialidades, sobre qualquer coisa.

 

     O desejo de morrer, ou as fantasias sobre a morte, que esses jovens nos trazem, não devem nos assustar e assim nos levar a apressadamente a calá-los - mas deve nos convocar a escutá-los, deve nos levar ao convite para falarem mais disso.

 

     A palavra é o único modo de elaborarmos. Com aquilo que vira palavra podemos fazer algo. Mas aquilo que não vira palavra nos faz refém dos acontecimentos.

Então, bora falar e ouvir.”

 

     Contamos com o apoio e parceria das famílias em nossas ações preventivas como o Projeto Be Better, que representa uma oportunidade valiosíssima de se perceber e respeitar os sentimentos e sofrimentos de nossas crianças e adolescentes, naturalizando o diálogo e estreitando a relação de confiança com os filhos, ajudando-os a ampliar seu repertório comportamental e a superar os dramas existenciais que a vida impõe.

 

Carinhosamente,

Escola Internacional de Goiânia

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